O povo se uniu contra o bolsonarismo. Por que acredito que Lula vencerá o segundo turno.

O POVO SE UNIU CONTRA O BOLSONARISMO. POR QUE ACREDITO QUE LULA VENCERÁ O SEGUNDO TURNO.

A histórica mobilização deste domingo na Avenida Paulista, a participação de artistas, estudantes e movimentos sociais, o crescimento das redes de apoio e a reação popular aos acontecimentos políticos dos últimos dias revelam um fenômeno que vai além de uma campanha eleitoral. Minha tese é que brasileiros de diferentes posições políticas estão encontrando na rejeição ao bolsonarismo uma causa comum. Não se trata mais, exclusivamente, de esquerda contra direita. Trata-se da possibilidade de formação de uma maioria democrática que reconhece em Lula a alternativa para o futuro do país.

Por Ricardo Patrese | Jornalista | Análise política e artigo de opinião

11 de outubro de 2026

Há momentos na história em que os acontecimentos avançam mais rapidamente do que as interpretações construídas sobre eles.

As pessoas ocupam as ruas. Novas vozes se manifestam. Organizações antes distantes encontram objetivos comuns. Aquilo que parecia uma disputa convencional entre forças políticas passa a adquirir um significado mais profundo.

Uma sociedade pode continuar dividida sobre muitos assuntos e, ainda assim, encontrar razões para se unir diante de determinada circunstância.

É essa transformação que acredito estar testemunhando no Brasil.

E começo este artigo assumindo uma previsão que poderá ser confrontada com a realidade daqui a duas semanas.

Luiz Inácio Lula da Silva será reeleito presidente da República em 25 de outubro de 2026.

Não escrevo essa afirmação porque Lula esteja liderando as pesquisas eleitorais. Não está.

Também não desconheço que Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com mais votos, nem ignoro a força política e eleitoral de seu adversário.

Mas minha interpretação não começa nas pesquisas.

Começa nas ruas, na memória histórica, na organização popular, nas manifestações culturais e na capacidade de pessoas com diferentes posições políticas reconhecerem uma preocupação compartilhada.

O que estamos testemunhando não é apenas uma campanha presidencial tentando recuperar terreno depois de um resultado desfavorável.

É uma convergência contra o bolsonarismo que já existe, já se organiza e já ocupa espaços importantes da sociedade brasileira.

A questão que permanece em aberto é sua dimensão eleitoral.

Minha previsão é que essa convergência alcançará a maioria necessária para reeleger Lula.

Não apresento essa interpretação como um resultado comprovado. Apresento uma tese política construída antes das urnas, fundamentada em acontecimentos observáveis e numa leitura histórica sobre a capacidade de organização da sociedade.

Em 5 de setembro deste ano, publiquei no Chapada Urgente um artigo no qual antecipei a vitória de Jerônimo Rodrigues no primeiro turno das eleições para o governo da Bahia.

Naquele momento, levantamentos eleitorais apresentavam um cenário mais equilibrado. Minha previsão considerou o histórico das eleições baianas, a distribuição territorial dos votos, a força das lideranças municipais e características políticas que não poderiam ser compreendidas pela leitura de uma pesquisa isolada.

As urnas confirmaram aquela análise.

Isso não significa que um acerto anterior garanta o próximo.

Mas reforça minha compreensão de que eleições precisam ser estudadas como processos históricos, políticos e sociais, e não apenas como uma sucessão de percentuais.

Agora, estou diante de uma situação diferente.

Na Bahia, investiguei a permanência de um padrão eleitoral.

Na eleição presidencial, estou investigando a possibilidade de uma transformação coletiva.

Minha tese é que a eleição que começou como um julgamento sobre o governo Lula pode terminar como um julgamento sobre o próprio bolsonarismo.

E acredito que essa mudança será decisiva.

1. A Paulista revelou a dimensão de uma união que já estava acontecendo

Neste domingo, 11 de outubro, a Avenida Paulista foi ocupada por uma manifestação expressiva em defesa da reeleição de Lula.

A Marcha pela Democracia reuniu estudantes, artistas, organizações sociais, lideranças políticas e milhares de cidadãos numa mobilização que alcançou grande repercussão nacional.

O UOL registrou sete quarteirões ocupados, enquanto outra cobertura da imprensa descreveu uma concentração que se estendeu por um trecho ainda maior da avenida.

O presidente participou do ato acompanhado do vice-presidente Geraldo Alckmin e de governadores aliados, entre eles Jerônimo Rodrigues, da Bahia, Elmano de Freitas, do Ceará, e Rafael Fonteles, do Piauí.

A juventude teve participação destacada na organização e nas manifestações públicas.

Fernando Haddad afirmou que um milhão de pessoas participaram do ato. A campanha apresentou estimativas semelhantes, mas não há uma contagem independente consolidada que permita confirmar esse número como público oficial ou recorde histórico absoluto.

Esse cuidado não diminui o acontecimento.

Uma multidão ocupou a Paulista. A manifestação exigiu alterações na circulação urbana e reuniu diferentes organizações numa demonstração expressiva de força política.

Mas considero que seu significado ultrapassa a quantidade de participantes.

A pergunta mais importante não é apenas quantas pessoas estavam presentes.

É por que estavam ali.

A mobilização reuniu pessoas interessadas em defender a democracia, a educação pública, os direitos sociais, a soberania nacional e a reeleição presidencial.

Nem todos os participantes precisam compartilhar exatamente a mesma interpretação sobre o governo Lula.

Nem todos precisam concordar sobre economia, segurança pública ou a condução da administração federal.

O que torna a convergência politicamente relevante é a possibilidade de que preocupações distintas encontrem uma expressão comum.

E essa manifestação não começou na Paulista.

Nos dias anteriores, estudantes já haviam ocupado ruas do Rio de Janeiro em atos contrários a uma nova Presidência da família Bolsonaro. Outras iniciativas de mobilização foram organizadas por entidades estudantis, movimentos sociais e comunidades digitais.

O que vimos neste domingo não foi o nascimento repentino de uma união.

Foi a manifestação pública, numa escala particularmente expressiva, de uma organização que já estava em andamento.

E acredito que esse movimento merece ser compreendido como um dos acontecimentos políticos mais relevantes deste segundo turno.

2. O primeiro turno revelou a força de Flávio. O segundo pode revelar os limites do bolsonarismo.

O resultado de 4 de outubro precisa ser reconhecido.

Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula obteve 45,16%.

A diferença foi de aproximadamente 2,2 milhões de votos.

Não é uma vantagem desprezível.

Flávio conseguiu reunir apoio expressivo, construiu alianças políticas e demonstrou capacidade de mobilização.

Seria um erro tratar seus eleitores como pessoas incapazes de avaliar seus próprios interesses.

Os brasileiros que votaram nele possuem motivações diferentes. Alguns se identificam com o conservadorismo, outros priorizam segurança pública, economia, religião ou a rejeição ao governo Lula.

Nenhuma análise séria pode reduzir milhões de votos a uma explicação única.

Entretanto, o segundo turno estabelece uma nova circunstância.

No primeiro, os eleitores puderam escolher entre várias candidaturas.

No segundo, precisarão decidir entre Lula e Flávio.

A escolha deixa de envolver apenas a identificação com o candidato preferido e passa a exigir uma comparação direta entre duas alternativas.

É nesse ponto que considero possível uma transformação.

Uma pessoa pode estar insatisfeita com o governo e continuar insatisfeita até o dia da eleição.

Pode discordar de Lula sobre economia, segurança pública ou sua relação com o Congresso.

E, ainda assim, concluir que a alternativa bolsonarista não representa o futuro que deseja para o país.

Essa escolha não exige uma conversão ideológica.

Não exige que alguém se torne petista.

Nem que abandone todas as críticas ao presidente.

Exige apenas que, diante das duas candidaturas, encontre razões suficientes para escolher uma delas.

O segundo turno pode permitir que pessoas que não se uniram pela aprovação de Lula se unam pela rejeição ao bolsonarismo.

É essa possibilidade que considero central.

3. Não é mais apenas esquerda contra direita

A democracia brasileira sempre reuniu diferentes tradições políticas.

Há pessoas de esquerda, direita e centro que discordam sobre o papel do Estado, a economia, os direitos trabalhistas e as políticas sociais.

Essas diferenças são legítimas.

Mas não esgotam todas as questões relevantes de uma sociedade.

Uma pessoa pode defender uma economia liberal e condenar a tortura.

Pode ser conservadora nos costumes e rejeitar a exaltação da ditadura militar.

Pode discordar profundamente do PT e defender com firmeza a Constituição, as eleições e a alternância democrática.

Essas posições não são incompatíveis.

É por isso que considero insuficiente interpretar a disputa presidencial apenas como um confronto entre esquerda e direita.

Na minha avaliação, a rejeição ao bolsonarismo pode reunir brasileiros de diferentes identidades políticas, especialmente quando a comparação entre candidaturas passa a envolver sua relação com instituições, direitos fundamentais e experiências históricas.

A aliança entre Lula e Geraldo Alckmin demonstra que convergências entre trajetórias distintas são possíveis.

Alckmin disputou a Presidência contra Lula em 2006. Construiu grande parte de sua carreira num campo político historicamente adversário ao PT.

Anos depois, tornou-se seu vice-presidente.

A aliança não eliminou suas diferenças anteriores.

Mostrou que circunstâncias políticas podem produzir aproximações entre pessoas que não possuem a mesma história partidária.

O que procuro compreender agora é se essa lógica de convergência está alcançando dimensões mais amplas da sociedade.

Não afirmo que todos os manifestantes da Paulista sejam de centro ou direita. A presença de organizações de esquerda é evidente.

Também não afirmo que a maioria nacional contrária ao bolsonarismo já esteja estatisticamente demonstrada.

O que observo é um movimento organizado cuja expressão pública ultrapassa a atuação formal de uma campanha.

A união que pode decidir esta eleição não precisa eliminar as diferenças entre os brasileiros. Precisa oferecer uma razão comum para uma escolha eleitoral.

4. A história ajuda a explicar por que a democracia pode se tornar uma causa comum

Não é possível compreender a dimensão política da rejeição ao bolsonarismo sem recuperar a história brasileira.

O regime militar instaurado em 1964 interrompeu a ordem democrática, restringiu direitos, perseguiu opositores, impôs censura e utilizou mecanismos de repressão política.

Esses acontecimentos não pertencem ao terreno das preferências partidárias.

São fatos históricos documentados em arquivos públicos, investigações, processos judiciais e pesquisas acadêmicas.

O projeto Brasil: Nunca Mais revelou violações de direitos humanos a partir de documentos produzidos no próprio sistema de Justiça Militar.

Marcos Napolitano, em 1964: História do Regime Militar Brasileiro, reconstruiu os processos políticos e sociais relacionados à ditadura.

Rodrigo Patto Sá Motta, em Passados Presentes, investigou como a memória de 1964 permanece em disputa na sociedade.

Elio Gaspari estudou extensamente os mecanismos de poder e repressão do regime militar.

Zuenir Ventura, em 1968: O Ano que Não Terminou, recuperou um período decisivo da resistência cultural e política brasileira.

Essas obras apresentam abordagens distintas. Mas permitem compreender por que o passado autoritário permanece relevante no debate democrático.

Estamos falando de pessoas presas, perseguidas, torturadas e assassinadas.

De famílias que passaram décadas procurando informações sobre parentes desaparecidos.

De artistas censurados, estudantes perseguidos e trabalhadores privados de direitos políticos.

A Constituição de 1988 representa uma conquista institucional de um processo histórico de redemocratização.

Ela não pertence à esquerda, à direita ou a qualquer partido.

Pertence à sociedade brasileira.

A defesa de direitos fundamentais não deveria depender da preferência por determinado candidato.

Não é necessário concordar sobre o tamanho do Estado para reconhecer que nenhuma autoridade pode estar acima da Constituição.

Essa é uma das razões pelas quais considero possível uma convergência democrática capaz de ultrapassar identidades partidárias.

5. O próprio Flávio Bolsonaro registrou posições sobre a ditadura que precisam ser debatidas

Em 2017, Flávio Bolsonaro publicou o livro Jair Messias Bolsonaro: Mito ou Verdade, no qual apresentou sua interpretação sobre a trajetória política do pai.

A obra voltou ao debate eleitoral depois que uma reportagem da Folha de S.Paulo, publicada em 2 de outubro, recuperou passagens relacionadas ao golpe de 1964, à ditadura militar, ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra e à confiabilidade das urnas eletrônicas.

Segundo a reportagem, Flávio negou a caracterização de 1964 como golpe militar, elogiou agentes da ditadura e apresentou avaliação positiva de Ustra, reconhecido judicialmente como responsável por práticas de tortura.

Também questionou aspectos da história de Rubens Paiva, cuja morte sob responsabilidade da repressão já foi reconhecida oficialmente pelo Estado brasileiro.

Esses registros merecem ser examinados porque foram publicados pelo próprio candidato.

Um político pode mudar de opinião.

Pode rever posições anteriores e apresentar novas interpretações.

Mas alguém que pretende presidir a República precisa explicar com clareza o que pensa sobre acontecimentos fundamentais da história nacional.

Não é necessário atribuir automaticamente a Flávio todas as posições de Jair Bolsonaro.

Sua própria trajetória oferece elementos suficientes para uma análise crítica.

A assessoria de Flávio, quando questionada pela Folha, afirmou que o livro expressava valores ligados à defesa da democracia, da família e das liberdades.

Essa manifestação também precisa ser considerada.

Entretanto, permanece legítimo confrontar o discurso atual com as posições registradas anteriormente.

A relação de um candidato com a memória da ditadura não constitui uma questão secundária.

Ela ajuda o eleitor a compreender valores políticos e compromissos institucionais.

Na minha interpretação, esse debate pode ter importância especial para pessoas que não se identificam com a esquerda, mas consideram inaceitável a relativização de práticas autoritárias.

A rejeição ao autoritarismo não deveria ser propriedade de um partido.

E pode tornar-se um ponto de encontro entre cidadãos politicamente diferentes.

6. A pandemia também deixou uma memória política que não desapareceu

Outro acontecimento fundamental para compreender a rejeição ao bolsonarismo é a pandemia de Covid-19.

O Brasil registrou mais de 700 mil mortes associadas à doença.

A tragédia atingiu famílias de diferentes classes sociais, regiões e convicções políticas.

Durante o governo Jair Bolsonaro, declarações presidenciais e decisões relacionadas às políticas sanitárias, à vacinação e à gravidade da pandemia provocaram controvérsias e críticas.

A CPI da Pandemia investigou ações e omissões do governo federal.

Isso não significa que todas as mortes possam ser atribuídas exclusivamente a uma autoridade. Tampouco que as conclusões de uma investigação parlamentar constituam automaticamente condenações judiciais.

Mas a responsabilidade política pelas decisões tomadas durante a emergência permanece um assunto legítimo.

Milhões de brasileiros conviveram com medo, perdas familiares, dificuldades econômicas e sofrimento.

Essas experiências não desaparecem simplesmente porque o calendário eleitoral mudou.

A memória coletiva participa da maneira como as pessoas avaliam lideranças e projetos políticos.

Não afirmo que todas as famílias atingidas pela pandemia votarão em Lula.

Seria uma generalização incorreta.

Mas considero que a experiência daquele período integra as razões pelas quais parte da sociedade rejeita o retorno do bolsonarismo à Presidência.

A política não é construída apenas por discursos e programas.

Também é construída por experiências vividas.

E existem acontecimentos que permanecem na consciência das pessoas durante muitos anos.

7. A participação dos artistas está ampliando o alcance do debate político

Nos últimos dias, artistas brasileiros passaram a participar publicamente do debate sobre o segundo turno.

A manifestação de Ivete Sangalo, durante apresentação em Fortaleza, representa um exemplo importante.

Diante de manifestações favoráveis a Lula, a cantora reconheceu a existência de insatisfações políticas, mas defendeu que a tomada de decisão exige lucidez.

O significado desse posicionamento não está apenas na identificação com o presidente.

Está na possibilidade de alguém reconhecer problemas e, ainda assim, realizar uma escolha comparativa favorável à continuidade do governo.

Daniela Mercury também participou da mobilização em São Paulo.

Outros artistas, atores e profissionais da cultura manifestaram posições e participaram de atividades públicas.

Esse movimento precisa ser compreendido sem exageros.

A opinião de uma personalidade não determina automaticamente o voto de seus admiradores.

Artistas possuem públicos diversos, formados por pessoas que podem concordar ou discordar de suas posições políticas.

Mas a cultura possui capacidade de alcançar espaços que normalmente não acompanham o debate partidário.

Uma manifestação pública pode despertar conversas.

Uma conversa pode estimular reflexão.

E uma pessoa que antes não atribuía importância à eleição pode começar a acompanhar a disputa.

A participação cultural não garante esses resultados.

Mas cria novas oportunidades de circulação do debate.

O fenômeno ganhou outra dimensão com o envolvimento de comunidades de fãs.

Neste domingo, Geraldo Alckmin reuniu-se com representantes de fã-clubes ligados a artistas como Anitta, Beyoncé, Lady Gaga, BTS e Taylor Swift, dentro de iniciativas de mobilização da juventude.

É fundamental distinguir o apoio político dos integrantes dessas comunidades do eventual posicionamento dos próprios artistas.

Ainda assim, sua organização demonstra como grupos originalmente formados por interesses culturais podem participar do debate eleitoral.

Não estamos falando apenas da comunicação oficial do PT.

Estamos falando de pessoas que possuem seus próprios espaços de convivência e organização.

Uma eleição pode alcançar novos públicos quando deixa de circular exclusivamente pelos caminhos tradicionais da política.

E considero que esse fenômeno merece atenção especial.

8. O Exército do Lula mostrou uma capacidade de organização que não pode ser ignorada

Depois do primeiro turno, o canal Exército do Lula, administrado pelo deputado André Janones, registrou crescimento expressivo no WhatsApp.

A rede ultrapassou três milhões de seguidores.

É importante compreender corretamente o significado desse número.

Milhões de seguidores não representam necessariamente milhões de eleitores novos.

Parte dessas pessoas já apoiava Lula anteriormente.

O crescimento, entretanto, demonstra capacidade de organização e circulação de conteúdos políticos.

Esse fenômeno passou a integrar a própria disputa entre as campanhas.

Neste domingo, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Kassio Nunes Marques, determinou a suspensão do canal, atendendo a pedido da candidatura de Flávio Bolsonaro.

A decisão foi fundamentada em alegações de disseminação coordenada de conteúdos falsos, incluindo informações sobre propostas atribuídas ao senador.

Janones e a campanha de Lula criticaram a medida.

A controvérsia provocou reação imediata nas redes.

Outros espaços digitais receberam novos seguidores, enquanto apoiadores passaram a discutir publicamente a decisão.

Em seguida, o ministro Ricardo Villas Bôas Cueva revogou provisoriamente a suspensão, considerando insuficientes os elementos disponíveis para manter uma restrição tão ampla.

O episódio não autoriza concluir que a Justiça Eleitoral tenha deliberadamente favorecido uma candidatura.

Também não dispensa o combate à desinformação.

Mas revela algo politicamente importante.

A suspensão de um canal não interrompeu a mobilização de seus participantes. Houve reação, reorganização e continuidade do envolvimento digital.

O acontecimento demonstra capacidade de resposta.

E essa capacidade ajuda a compreender uma característica relevante das mobilizações contemporâneas.

Uma rede política não depende necessariamente de um único centro de comando.

Pode circular por diferentes canais, grupos, perfis e comunidades.

Isso não transforma automaticamente seguidores em votos.

Mas revela uma organização que precisa ser considerada na análise do segundo turno.

9. As pesquisas não são sentenças. E os acontecimentos continuam depois de sua coleta.

Na véspera do primeiro turno, o Datafolha registrou Lula com 45% dos votos válidos e Flávio Bolsonaro com 42%.

Era um empate técnico, mas o presidente aparecia numericamente à frente.

Nas urnas, Flávio terminou com 47,03%, enquanto Lula recebeu 45,16%.

O levantamento não antecipou a ordem final dos candidatos.

Essa diferença merece atenção, mas não permite afirmar que todas as pesquisas são inúteis ou que todos os institutos erraram da mesma maneira.

Pesquisas trabalham com estimativas, amostras, metodologias e margens de erro.

São instrumentos relevantes.

Mas possuem limites.

E há um limite especialmente importante neste momento.

Os primeiros levantamentos do segundo turno foram realizados antes dos acontecimentos deste domingo.

O Datafolha registrou Flávio com 52% e Lula com 48% dos votos válidos, em pesquisa publicada em 8 de outubro.

As entrevistas ocorreram nos dias 6 e 7.

Portanto, aquele levantamento não poderia medir as consequências de uma manifestação ocorrida no dia 11.

Também não poderia registrar eventuais mudanças produzidas pelos pronunciamentos dos artistas no fim de semana ou pelo episódio envolvendo o canal Exército do Lula.

Isso não significa que esses acontecimentos necessariamente modificaram milhões de votos.

Significa que seus efeitos ainda não foram medidos por aquelas pesquisas.

É uma distinção fundamental.

Minha tese não é que as pesquisas estejam necessariamente erradas. É que a sociedade continua fazendo política depois que os institutos encerram suas entrevistas.

As pessoas continuam conversando.

Continuam avaliando as candidaturas.

Podem modificar suas preferências ou sua disposição de comparecer às urnas.

Nenhum resultado futuro está automaticamente contido numa pesquisa anterior.

Por isso, não considero adequado atribuir aos levantamentos uma capacidade absoluta de determinar o desfecho eleitoral.

Minha análise procura compreender uma transformação social que pode estar ocorrendo entre um levantamento e outro.

As pesquisas futuras poderão ajudar a avaliar sua dimensão eleitoral.

Mas não precisamos esperar por elas para reconhecer que a mobilização já existe.

10. A história de 2014 demonstra que uma eleição pode mudar ao longo do segundo turno

Em 2014, Dilma Rousseff e Aécio Neves disputaram uma das eleições presidenciais mais acirradas da história brasileira.

Dilma havia terminado o primeiro turno à frente.

Mas a primeira pesquisa Datafolha da nova etapa apresentou Aécio numericamente na liderança, com 51% dos votos válidos, diante dos 49% da presidente.

Durante as semanas seguintes, o cenário mudou.

As pesquisas acompanharam parte dessa alteração e Dilma terminou vencedora, com 51,64% dos votos válidos.

A experiência demonstra que o segundo turno pode modificar preferências eleitorais.

Entretanto, existe uma diferença importante em relação a 2026.

Dilma havia vencido o primeiro turno.

Lula começou a etapa decisiva atrás de Flávio.

Isso torna seu desafio maior.

Também é verdade que, desde a redemocratização, nenhum candidato presidencial que terminou o primeiro turno na segunda colocação conseguiu vencer o segundo.

É um precedente histórico desfavorável à minha previsão.

Não seria responsável escondê-lo.

Mas a história não funciona como uma lei que impede a ocorrência de fatos inéditos.

Um resultado não se torna impossível simplesmente porque ainda não aconteceu.

O que precisamos compreender são as condições capazes de produzir uma mudança.

E é justamente esse o ponto central da minha análise.

Minha hipótese é que a convergência contra o bolsonarismo pode produzir uma reorganização de preferências e da participação eleitoral suficientemente expressiva para superar a vantagem inicial de Flávio.

Não afirmo que 2014 esteja se repetindo.

Afirmo que eleições podem mudar durante sua realização.

E que uma análise política precisa investigar o movimento dos acontecimentos, não apenas os resultados já registrados.

11. A abstenção pode transformar a composição do eleitorado

O primeiro turno de 2026 registrou aproximadamente 33,4 milhões de eleitores ausentes.

Esse número representa mais de um quinto do eleitorado brasileiro.

Não significa que existam 33 milhões de votos disponíveis para Lula.

Entre os ausentes há eleitores de diferentes posições políticas.

Alguns enfrentaram dificuldades de saúde, deslocamento ou trabalho.

Outros não encontraram razões suficientes para participar.

Mas uma mobilização social mais ampla pode modificar a disposição de comparecimento de determinados grupos.

Uma pessoa que não participou do primeiro turno pode decidir votar no segundo ao atribuir maior importância à escolha.

Isso não acontece automaticamente.

Mas é um mecanismo possível de alteração do resultado.

O mesmo vale para os eleitores que escolheram candidaturas derrotadas.

Esses votos não pertencem antecipadamente a Lula ou Flávio.

A decisão será individual.

O que precisa ser observado é o saldo eleitoral.

Se uma mobilização trouxer novos votantes favoráveis a Lula em proporção maior que os favoráveis a Flávio, o presidente poderá reduzir a diferença.

Se ocorrer o contrário, a vantagem do senador poderá aumentar.

Também pode haver mudança direta de preferência entre os dois candidatos.

Nesse caso, cada transferência de um voto de Flávio para Lula reduz a diferença entre eles em dois votos.

Portanto, uma recuperação eleitoral pode resultar da combinação de diversos movimentos.

Não precisa depender de um único acontecimento extraordinário.

Minha previsão é que a convergência contra o bolsonarismo poderá contribuir para essa combinação.

Seu efeito real, entretanto, dependerá dos votos.

12. A força do bolsonarismo continua existindo. E é justamente por isso que a convergência importa.

Seria um erro afirmar que o bolsonarismo desapareceu da sociedade.

Flávio Bolsonaro recebeu mais de 56 milhões de votos no primeiro turno.

Sua candidatura possui alianças políticas, estruturas partidárias, apoio de governadores e presença expressiva em diferentes regiões.

Também continua mobilizando seus próprios eleitores.

O governador Tarcísio de Freitas, em São Paulo, e outras lideranças passaram a participar da articulação favorável ao senador.

A disputa continua aberta.

Não há fundamento para imaginar que apenas os apoiadores de Lula estão mobilizados.

Mas a existência de uma força política organizada não impede que uma convergência contrária também se desenvolva.

A questão não é saber se todos os brasileiros rejeitam o bolsonarismo.

Evidentemente, não rejeitam.

A questão é saber se a rejeição poderá reunir a maioria dos votos válidos no segundo turno.

Não estou prevendo o desaparecimento de uma corrente política.

Estou prevendo uma derrota eleitoral.

E considero que essa derrota pode resultar de uma união que ultrapassa identidades partidárias tradicionais.

O bolsonarismo não precisa deixar de existir para perder a eleição. Precisa ser superado em votos por uma maioria que encontre razões para escolher outra alternativa.

13. O que poderá confirmar ou enfraquecer minha previsão

Uma previsão feita antes do resultado precisa permitir que seus fundamentos sejam confrontados com os acontecimentos posteriores.

A convergência contra o bolsonarismo já possui manifestações públicas documentadas.

A questão é verificar sua amplitude.

Minha interpretação ganhará força se novas evidências mostrarem que a mobilização está alcançando pessoas além da base tradicional de Lula.

Também será fortalecida se pesquisas realizadas depois dos acontecimentos desta semana registrarem mudanças consistentes de intenção de voto.

Outro elemento importante será a disposição de comparecimento entre eleitores ausentes no primeiro turno.

Mudanças regionais, especialmente nos maiores colégios eleitorais, também poderão indicar alterações relevantes.

Por outro lado, minha tese ficará enfraquecida se a mobilização permanecer concentrada exclusivamente em pessoas que já apoiavam Lula.

Se Flávio consolidar sua vantagem nas pesquisas posteriores, ampliar o apoio entre eleitores de outras candidaturas e conseguir comparecimento favorável, a recuperação que prevejo se tornará mais difícil.

Esses critérios não diminuem minha convicção.

Demonstram que uma análise precisa aceitar o confronto com a realidade.

O que considero comprovado é a existência de uma mobilização organizada, com manifestações presenciais, participação cultural e expressiva capacidade de comunicação digital.

O que ainda não considero comprovado é sua dimensão como maioria eleitoral nacional.

Essa é a previsão que assumo.

14. Por que acredito que Lula vencerá

Chego ao ponto central deste artigo.

Por que prever a vitória de Lula quando Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente e lidera a maioria das pesquisas disponíveis?

Porque acredito que a disputa presidencial está adquirindo um significado diferente daquele que predominou na primeira etapa.

O primeiro turno foi marcado, em grande medida, pela avaliação do governo.

O segundo está abrindo espaço para uma comparação mais ampla entre projetos políticos, trajetórias e valores.

Nesse processo, a rejeição ao bolsonarismo pode aproximar pessoas que não possuem a mesma identidade partidária.

A memória da ditadura, as posições públicas de suas lideranças, a experiência da pandemia e as preocupações sobre o funcionamento das instituições democráticas integram essa comparação.

A participação de estudantes, artistas e movimentos sociais revela uma mobilização concreta.

A organização de comunidades digitais demonstra capacidade de alcance.

A reação ao episódio do TSE evidencia disposição de participação e resposta.

E a ocupação da Avenida Paulista neste domingo constitui uma expressão pública de grande magnitude.

Nenhum desses acontecimentos, isoladamente, garante a vitória.

Mas sua convergência revela um ambiente político que considero potencialmente favorável à ampliação do apoio a Lula.

Minha interpretação é que a candidatura do presidente pode reunir dois tipos de apoio que não são idênticos.

De um lado, aqueles que aprovam seu governo e desejam sua continuidade.

De outro, pessoas que mantêm críticas à administração, mas consideram a alternativa bolsonarista incompatível com determinadas prioridades ou valores.

Esses grupos não precisam pensar da mesma maneira.

Podem chegar à mesma escolha por razões diferentes.

É justamente isso que torna possível a formação de uma maioria ampla.

Minha previsão é que a rejeição ao bolsonarismo será capaz de reunir votos suficientes para superar a vantagem inicial de Flávio Bolsonaro.

Não porque todos tenham se tornado de esquerda.

Não porque os problemas do governo tenham desaparecido.

Não porque as pesquisas precisem necessariamente estar erradas.

Mas porque a sociedade pode reorganizar suas escolhas quando reconhece novas consequências numa disputa política.

15. O povo se uniu contra o bolsonarismo. Minha previsão é que essa união vencerá nas urnas.

Escrevo este artigo em 11 de outubro de 2026.

Faltam duas semanas para a eleição.

Não conheço o resultado.

Flávio Bolsonaro liderou o primeiro turno.

As pesquisas disponíveis apresentam dificuldades importantes para Lula.

O bolsonarismo continua forte e possui milhões de eleitores.

Mas existe outro conjunto de acontecimentos igualmente real.

As ruas estão ocupadas.

Estudantes participam de manifestações.

Artistas assumem publicamente posições políticas.

Comunidades culturais se organizam.

Milhões de pessoas integram redes digitais de apoio.

E diferentes setores sociais encontram razões para se mobilizar contra o bolsonarismo.

Esses acontecimentos não significam que todo o Brasil pensa da mesma maneira.

Significam que uma convergência política já existe e se tornou especialmente visível neste segundo turno.

O que ainda está em disputa é sua capacidade de conquistar a maioria eleitoral.

Minha previsão é que conseguirá.

A história brasileira demonstra a importância da organização popular na defesa de direitos e na construção democrática.

A redemocratização não foi resultado exclusivo das decisões de governantes.

Envolveu movimentos sociais, estudantes, trabalhadores, artistas, intelectuais, entidades civis e pessoas que não compartilhavam necessariamente os mesmos projetos políticos.

A campanha das Diretas Já demonstrou que uma sociedade pode se mobilizar em torno de uma reivindicação comum, mesmo preservando profundas divergências.

A comparação não significa que estejamos vivendo as mesmas circunstâncias daquele período.

Mas revela uma característica importante da ação coletiva.

As pessoas não precisam concordar sobre tudo para reconhecer a importância de uma causa compartilhada.

É essa capacidade que procuro compreender nos acontecimentos atuais.

Não considero que Lula seja o único protagonista da eleição.

Tampouco acredito que a história possa ser explicada exclusivamente pela disputa entre duas lideranças.

O protagonista da minha tese é a sociedade brasileira e sua capacidade de se organizar, disputar ideias e construir convergências.

Acredito que a mobilização contra o bolsonarismo poderá ultrapassar o entusiasmo de quem já apoiava Lula e alcançar pessoas que, diante das duas alternativas, encontrarão razões suficientes para escolher o presidente.

Acredito que essa convergência será capaz de reunir eleitores críticos, recuperar parte da participação ausente e influenciar escolhas ainda não definitivamente consolidadas.

É uma previsão política, não uma certeza matemática.

Mas é uma previsão que assumo antes das urnas.

E que poderá ser avaliada depois delas.

A eleição que começou como um julgamento do governo Lula pode terminar como um julgamento do próprio bolsonarismo.

Não porque todos tenham abandonado suas diferenças.

Mas porque diferenças legítimas podem perder importância relativa quando cidadãos reconhecem preocupações compartilhadas.

Não porque toda manifestação popular determine automaticamente o resultado eleitoral.

Mas porque uma mobilização social pode participar da formação de uma maioria.

Não porque exista qualquer direito antecipado à vitória.

Mas porque milhões de brasileiros ainda farão suas escolhas no dia 25 de outubro.

Minha convicção é que essa convergência favorecerá Lula.

O povo já se uniu contra o bolsonarismo como movimento político organizado. Acredito que essa união será suficientemente ampla para derrotá-lo nas urnas.

É essa a tese que apresento hoje.

Antes do resultado.

Antes que seja possível reorganizar retrospectivamente as interpretações e apresentar como inevitável aquilo que ainda está em disputa.

Em 25 de outubro, as urnas darão sua resposta.

Hoje, registro minha previsão diante da história.

Luiz Inácio Lula da Silva será reeleito presidente da República.

Ricardo Patrese

Chapada Urgente – Notícias da Bahia, Brasil e Mundo, por Ricardo Patrese

Referências históricas

  • ARNS, Paulo Evaristo; WRIGHT, Jaime e colaboradores. Brasil: Nunca Mais. Vozes, 1985.

  • GASPARI, Elio. As Ilusões Armadas, coleção sobre a ditadura brasileira.

  • MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Passados Presentes: O golpe de 1964 e a ditadura militar. Zahar, 2021.

  • NAPOLITANO, Marcos. 1964: História do Regime Militar Brasileiro. Contexto, 2014.

  • VENTURA, Zuenir. 1968: O Ano que Não Terminou. Nova Fronteira, 1988.

  • BOLSONARO, Flávio. Jair Messias Bolsonaro: Mito ou Verdade. Altadena, 2017.

Nota de transparência editorial: este é um artigo de opinião e análise política elaborado com base nas informações disponíveis em 11 de outubro de 2026. A previsão de vitória expressa uma interpretação política, não uma projeção probabilística comprovada. As informações históricas e eleitorais foram confrontadas com documentos oficiais e cobertura jornalística.

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